O fundador da Zynga, Mark Pincus, está mexendo com as bases da indústria de desenvolvimento de jogos. Em seu mais recente livro, o executivo propõe uma ideia que, à primeira vista, pode parecer controversa: desenvolvedores precisam deixar o ego de lado e se sentir à vontade para 'copiar' ideias de jogos que já provaram seu sucesso no mercado. Essa tese desafia a noção tradicional de originalidade absoluta.
Pincus defende que essa abordagem não é uma falha, mas sim uma estratégia inteligente para otimizar o processo de criação e focar a energia onde a inovação é realmente necessária. A metodologia, batizada de 'Proven Better New' (PBN), é detalhada em sua obra 'Life at the Speed of Play', prometendo um novo olhar sobre como os estúdios podem alcançar o sucesso em um mercado competitivo.
A Filosofia "Proven Better New" em Detalhes
A estrutura Proven Better New (PBN) se divide em três etapas claras, cada uma com um objetivo específico para o desenvolvimento de jogos. Essa metodologia serve como um guia prático para equipes que buscam eficiência e relevância no mercado, priorizando o que já funciona antes de arriscar em algo totalmente inédito.
Proven: A Base da Reprodução Eficaz
O primeiro pilar, 'Proven', consiste na cópia fiel de features e mecânicas que já são amadas pelo público-alvo. Pincus é enfático: isso significa reproduzir 'cada pixel' de um produto que já atingiu o sucesso. O objetivo aqui não é reinventar a roda, mas sim reconhecer e replicar aquilo que comprovadamente agrada aos jogadores. Essa etapa inicial é fundamental para garantir uma base sólida de aceitação.
Para o fundador da Zynga, ignorar elementos de sucesso comprovado seria um erro. Ao invés de gastar tempo tentando criar do zero algo que já existe e funciona bem, os desenvolvedores podem acelerar o processo, aproveitando a familiaridade do público com certas interfaces e dinâmicas de jogo. É uma forma de minimizar riscos na fase inicial do projeto.
Better: Refinando o que Já Existe
Após replicar o 'Proven', a equipe avança para a etapa 'Better'. Aqui, o foco está em identificar o que pode ser aprimorado em relação ao produto original. Não se trata de uma cópia cega, mas sim de uma otimização. Isso pode envolver melhorias na usabilidade, na performance, na experiência do usuário ou em aspectos gráficos, por exemplo.
A fase 'Better' permite que o jogo se destaque da concorrência, oferecendo uma versão superior ou mais adaptada às necessidades dos jogadores. É o momento de aplicar a expertise da equipe para refinar e polir os elementos já existentes, agregando valor e corrigindo possíveis falhas ou oportunidades que o original não explorou completamente.
New: O Toque de Inovação Genuína
Finalmente, o pilar 'New' envolve adicionar uma ideia completamente inédita ao produto. Esta é, segundo Pincus, a parte mais arriscada de todo o processo. Por ser uma inovação genuína e sem precedentes, ela precisa ser isolada, cuidadosamente desenvolvida e testada separadamente para mitigar os riscos envolvidos. A equipe deve ter certeza de que essa novidade realmente agrega valor.
A inovação verdadeira, na visão de Pincus, deve vir depois de se ter uma base sólida e aprimorada. Isso garante que a energia criativa seja direcionada para o que realmente diferencia o jogo, sem desperdiçar recursos em tentativas de reinventar o que já está consolidado. É a cereja do bolo, o elemento que pode surpreender e engajar os jogadores de uma forma única.
O Ego como Obstáculo na Indústria de Games
Para Mark Pincus, o maior impedimento para a aplicação eficaz da metodologia PBN não é técnico, mas sim cultural. Ele aponta o ego dos desenvolvedores como um fator que muitas vezes atrapalha o processo criativo e produtivo na indústria de jogos. Essa barreira humana acaba custando tempo e recursos preciosos.
A Resistência em Copiar: Um Desafio Cultural
Desenvolvedores, especialmente os mais jovens, tendem a desperdiçar ciclos inteiros de produção tentando evitar a qualquer custo a impressão de que estão 'copiando' um concorrente. Esse esforço excessivo para ser 'original a todo custo' frequentemente resulta na entrega de produtos inferiores, que não conseguem competir efetivamente no mercado.
Pincus explica: "Todos nós queremos ser respeitados pelos nossos colegas, então nosso ego nos impede de copiar. Na minha experiência, quanto mais júnior o time de produto, mais eles gastam ciclos tentando muito não copiar ou nem mesmo parecer que estavam copiando." Essa mentalidade, segundo ele, desvia o foco da verdadeira inovação.
Maturidade e Maestria no Desenvolvimento
A solução, na visão do executivo, é simples e direta: "Precisamos nos sentir confortáveis em copiar o que já funciona (legalmente), para que possamos gastar todo o nosso tempo e energia na inovação genuína que realmente nos anima e anima nossos usuários." Isso significa aceitar a ideia de que a cópia, dentro de limites éticos e legais, pode ser uma ferramenta estratégica.
Pincus traça um paralelo com o artesanato para ilustrar essa maturidade: "Apenas um artesão mestre consegue identificar a excelência e se sentir confortável em copiá-la. Eles reconhecem quando algo já é excelente e entendem que mudar qualquer coisa só vai piorar — e eles confiam na própria capacidade de criar algo novo e inovador que vai falar por si mesmo." Essa confiança é a chave para a verdadeira inovação em jogos.
Exemplos Práticos da Metodologia Zynga
A teoria de Pincus não é apenas conceitual; ela foi aplicada e validada por sua própria empresa, a Zynga, e por outros grandes players da indústria de jogos. Os exemplos demonstram como o framework PBN pode ser um motor para o sucesso, mesmo em cenários de alta competitividade e inovação constante.
Zynga Poker: Um Caso de Sucesso Inicial
O primeiro jogo da Zynga, o popular Zynga Poker, é citado por Pincus como o exemplo fundador de sua metodologia. A aplicação do PBN nesse título ilustra perfeitamente como a estratégia pode ser eficaz desde o início da jornada de um estúdio. Foi um teste bem-sucedido de suas ideias sobre desenvolvimento de jogos.
No caso do Zynga Poker, o elemento 'Proven' foi a replicação das regras do pôquer online já existentes. Não havia necessidade de reinventar um jogo de cartas consolidado. O 'Better' surgiu ao tornar o jogo instantaneamente jogável, eliminando a necessidade de downloads complexos. E o 'New' foi a inovadora decisão de incorporar as identidades reais dos jogadores, utilizando as fotos de perfil do Facebook. Essa integração social foi um diferencial.
O Ciclo de Inspiração entre Gigantes do Mercado
Pincus também destaca que a troca de inspirações entre estúdios é uma via de mão dupla e não um problema. Ele admite abertamente que CityVille, um dos sucessos da Zynga, incorporou diversas ideias de Millionaire City. Em contrapartida, a Supercell utilizou elementos de FarmVille da Zynga para criar Hay Day, um de seus grandes títulos para mobile.
Longe de encarar essas 'cópias' como um problema, Pincus as vê como a maior validação possível de seu framework. Ele ressalta: "Um dos exemplos mais bem-sucedidos de Proven Better veio quando um time da Supercell criou Hay Day, que era essencialmente um FarmVille para mobile. Se você comparasse o Hay Day original com FarmVille, pensaria que eram o mesmo jogo."
Ele continua: "Ambos tinham a mesma meia entrada, a caixa de correio, e a casa com a cerca branca. Eles até têm a mesma caminhonete — uma era vermelha, a outra azul. Mas não estou reclamando. Isso é uma aula magistral de Proven Better New." Essa perspectiva ressalta a importância de aprender com o que já foi validado pelo público e refinar o conceito.
Copiar para Inovar: Uma Nova Perspectiva?
A proposta de Mark Pincus oferece uma perspectiva renovada sobre o desenvolvimento de jogos e a inovação em games. Em vez de ver a cópia como um ato de falta de criatividade, ele a posiciona como um degrau estratégico para a verdadeira inovação. O foco muda de ser 'o primeiro' para ser 'o melhor' e, subsequentemente, 'o mais inovador'.
A ideia é que, ao se sentir confortável em replicar o que já funciona legalmente, as equipes de desenvolvimento podem economizar tempo e energia. Essa economia de recursos pode então ser direcionada para a criação de elementos verdadeiramente novos e que realmente empolguem os jogadores. É uma forma de maximizar o impacto da criatividade.
Em um mercado tão dinâmico quanto o de jogos eletrônicos, onde a concorrência é acirrada e a expectativa por novidades é constante, a metodologia Proven Better New pode ser uma ferramenta valiosa. Ela permite que os estúdios construam sobre o sucesso existente, minimizando riscos e abrindo caminho para avanços que realmente cativam o público. Mark Pincus defende que essa é a estratégia para a sustentabilidade da inovação.
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